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A Maria pediu-me um texto para este blogue (que sempre se diz ser de todos e um espaço aberto e etc.; mas que é dela!).

Um texto com um pouco de biografia e que fale das músicas escolhidas por mim e que neste Projecto “Rádio Variedades” (que sempre se diz ser de todos e um espaço aberto e etc.; mas que é dela!) apresentei.

A Maria pediu um texto e um texto eu queria oferecer-lhe (não ao blogue, não ao Projecto, não ao “todos”; a ela).

Um texto bonito e informativo. Atractivo e útil. Informal e cúmplice.

Um texto que apresentasse um pouco da minha biografia. Que Denunciasse que nasci em Outubro. Dia das bruxas, disseram-me (não as bruxas, mas uma fada que, por facilidade, tratava por “mãe”). Um texto que dissesse que nasci a 31 de Outubro – em plena Primavera portanto, porque as Estações do ano, tal como muitas outras coisas, funcionam com uma lógica diferente abaixo do Equador – e que, depois, fosse por aí fora, aos sobressaltos, e que parasse, para se encostar num suspiro, nesse dia de Fevereiro em que participei no Projecto “Rádio Variedades”.

Deveria depois falar das músicas que escolhi para apresentar nesse espaço que, nessas noites, se torna como uma sala-de-estar em casa da Maria, com ela, obviamente, como anfitriã.

O problema é que não escolhi nenhuma das músicas. Afinal poucas são as coisas que, naquilo a que, por facilidade, chamamos vida, escolhemos. E, pessoalmente, não me parece muito inteligente gastar “balas” de escolhas em músicas (nisto como em quase tudo o resto deve de haver uma estupidez minha, de cálculo racional ou emotivo).

Assim que as músicas por mim apresentadas foram pois por elas próprias escolhidas. Lembro-me que a primeira foi o “ Impressões digitais” de G.N.R., talvez porque me tenha marcado (a escolha foi dela e não minha como se pode comprovar) a minha adolescência – que, feliz ou infelizmente, ainda não foi ontem que terminou. As palavras “faz-me impressão o trabalho, a inércia faz-me mal” desde que as ouvi na voz de Reininho pareceram-me desde logo uma verdade inquestionável. A mim dirigida. Em mim cravada.

A terceira música que “apresentei” é de Belchior, cantada por ele, por Eduardo e por Amelinha. E, certamente , também apenas devido a uma frase. À última do poema. Da canção.

A semelhança do desejo expresso nessa frase com o que eu desejo em cada olhar, em cada gesto, em cada … é tão grande que apenas por uma distracção maior esta música poderia não escolher-me. Cito: “ Eu quero que este canto torto, feito faca, corte a carne de vocês”.

A segunda música, a do meio, porque dizem que é ai que está a virtude (ao menos é aí que a procuro) foi “ Nos  sobran los motivos” de J. Sabina. Poeta de canções mais que outro qualquer que conheço. O universo de Sabina é o único que me foi apresentado que me provoca o único defeito que julgava não ter: inveja.

Sabina diz o que não consigo dizer e, por vezes, sem se perceber bem como, até o canta.  “Nos sobran los motivos” fala de quando o amor termina, de quando um casal se separa. Diz tudo o que não consigo dizer.E que pensava ser impossível ser dito. Com Sabina não. É vinagre nas feridas. E é a esperança que não fechem o bar da esquina. É a cura de humildade retratada por um ser que a vida transforma numa ruína de D. Juan. É o tempo que demora a passar e que antes continha toda a eternidade debaixo da saia da mulher que se ama(va).

A Maria pediu-me um texto. E um texto queria oferecer-lhe. Falhei-o. Dou-lhe “ isto”, entregue em folha de guardanapo de restaurante. Como da Maria se trata melhor  “porto seguro” este barquinho-de-papel não poderia encontrar.

Quanto ao “Rádio Variedades” deve dizer-se:

  1. Nada tem de Rádio: são pessoas numa sala a apresentar músicas num convívio em que todos nos vemos e onde ninguém tem de procurar o 69 Ponto G na telefonia.
  2. Nada tem de Variedades: é outro tipo de convívio. Que minha mão não escreverá. Que minha voz cala. Que a amizade guarda.

“Rádio Variedades” nada tem de “Rádio” nem de “Variedades”. Portanto, melhor nome não poderia, graças a Deus, ter.

E se acham isso estranho…bom…talvez…mas mais estranha é a vida, com os teus lábios (meu amor) no meio dela.

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